top of page

Lise Meitner: A mulher que Desvendou a Fissão Nuclear e Enfrentou a História

  • 4 de jan.
  • 4 min de leitura

Lise Meitner foi uma das físicas mais marcantes do século XX, cuja trajetória científica cruzou as fronteiras entre física fundamental, ética científica e os dilemas morais de uma era turbulenta. Sua história não é apenas a de uma pioneira em um campo dominado por homens, mas também a de uma cientista que enfrentou preconceitos de gênero, perseguição política e injustiças acadêmicas, mantendo um compromisso com a ciência e com a humanidade que ecoa até hoje.


Neste artigo, exploramos sua vida, suas contribuições à física moderna, os desafios que enfrentou como mulher e pesquisadora de origem judaica no contexto do nazismo, e as curiosidades que cercam sua carreira.


Lise Meitner Fissão Nuclear


Dos primeiros anos à física de vanguarda


Lise Meitner nasceu em Viena, no dia 7 de novembro de 1878, terceira de oito filhos em uma família judia. A educação de meninas em campos científicos ainda era rara no final do século XIX, mas sua família incentivou sua curiosidade intelectual desde cedo. Em 1901, ela entrou na Universidade de Viena, onde estudou física sob a orientação de Ludwig Boltzmann, tornando‑se em 1906 a segunda mulher a obter doutorado em física nessa instituição.


Logo depois, em 1907, mudou‑se para Berlim para estudar com o físico Max Planck, um dos fundadores da mecânica quântica, e começou uma colaboração duradoura com o químico Otto Hahn no Instituto Kaiser Wilhelm de Química. Ali, Meitner exerceu papéis fundamentais nas pesquisas sobre radioatividade, estruturando uma carreira científica que combinava física teórica e interpretação experimental.


Descobertas científicas e contribuições fundamentais


Prototactínio e o efeito Auger


Nos primeiros anos de sua colaboração com Hahn, Meitner contribuiu para a identificação do elemento protactínio‑231, um núcleo instável que ajudou a esclarecer aspectos iniciais da radioatividade e dos elementos transurânicos. Wikipédia

Outra contribuição significativa foi sua interpretação precoce do que mais tarde seria denominado efeito Auger, um processo pelo qual elétrons são ejetados de átomos excitados sem emissão de fótons, um conceito essencial para a física atômica e para a espectroscopia.


A física por trás da fissão nuclear


A contribuição mais conhecida de Meitner veio em 1938, com a explicação física da fissão nuclear — o processo no qual o núcleo de um átomo pesado, como o de urânio, se divide em núcleos menores, liberando uma enorme quantidade de energia e nêutrons no processo.


Quando seus colegas Otto Hahn e Fritz Strassmann descobriram experimentalmente as evidências de fissão na Alemanha, Meitner, que havia fugido para a Suécia devido à perseguição nazista, revisou os dados junto com seu sobrinho, Otto Frisch. Eles combinaram o modelo de gota líquida do núcleo com princípios da física para explicar o processo, e em 1939 publicaram o primeiro artigo usando o termo “nuclear fission” para descrever essa reação que hoje fundamenta tanto os reatores nucleares quanto as armas nucleares.


Esse insight teórico foi decisivo, porque transformou observações químicas em compreensão física, ligando a divisão do núcleo à enorme liberação de energia prevista pela famosa equação de Einstein (E = mc²) que relaciona massa e energia.


Entre guerras, exílio e ética científica


Quando os nazistas anexaram a Áustria em 1938, Meitner foi forçada a fugir da Alemanha por ser judia, atravessando a fronteira para os Países Baixos e depois para a Suécia, onde continuou seu trabalho com recursos limitados e frequentemente subfinanciada devido ao preconceito de gênero.


Apesar de ser convidada a integrar o Projeto Manhattan nos Estados Unidos, ela recusou a oferta, afirmando que não queria nada com uma bomba, demonstrando um posicionamento ético claro frente às implicações militares da física que ajudou a desenvolver.


Após a guerra, Meitner viveu entre conferências, palestras e colaborações, sempre defendendo um uso pacífico da ciência. Ela foi agraciada com honrarias como a medalha Max Planck em 1949 e o Prêmio Enrico Fermi em 1966 — este último compartilhado com Hahn e Strassmann em reconhecimento pela descoberta da fissão nuclear.


Nobel e a injustiça histórica


Apesar de ter sido indicada 49 vezes para o Prêmio Nobel em Física e Química, Meitner nunca foi laureada com a honra máxima da ciência. O Prêmio Nobel de Química de 1944 foi concedido apenas a Otto Hahn, excluindo a contribuição conceitual essencial de Meitner para a compreensão teórica da fissão.


Historiadores da ciência apontam que fatores como preconceito de gênero, exílio político e rivalidades acadêmicas influenciaram a decisão da Academia Nobel, que até hoje é considerada uma das injustiças mais notórias na história do prêmio.


Curiosidades sobre Lise Meitner e legado duradouro


Além de sua pesquisa seminal, a vida de Meitner está cheia de detalhes que ilustram tanto sua genialidade quanto os desafios que enfrentou:


  • Em 1926, tornou‑se a primeira mulher a lecionar física como professora titular na Alemanha, um feito raro em uma época de profundas restrições para mulheres na ciência.

  • Seu nome perpetua‑se na tabela periódica: o elemento de número 109 foi batizado de meitnério (Mt) em sua homenagem.

  • Crateras na Lua e em Vênus também levam seu nome, símbolo de sua importância na física e na astronomia.

  • Mesmo após sua morte em 1968, Meitner continua a ser lembrada como uma das figuras femininas mais importantes da física moderna, frequentemente chamada de “mãe da fissão nuclear”.


Conclusão


A trajetória de Lise Meitner é uma narrativa que vai além da física nuclear: é a história de uma mulher que rompeu barreiras impostas pelo gênero e pela história, teve papel central em uma das descobertas científicas mais revolucionárias do século XX, e manteve uma postura ética diante das aplicações destrutivas de seu trabalho.

Seu legado permanece não apenas nos textos de física e nos nomes de elementos químicos, mas também como um lembrete de que o reconhecimento científico deve sempre acompanhar o rigor intelectual e o compromisso humano que o possibilita.


Veja também as últimas descobertas de James Webb.


Comentários


bottom of page